segunda-feira, 2 de agosto de 2010

no meio fio




    andavam, se equilibrando:

    - por que você não anda com os braços abertos?
    - ué... porque eu haveria de andar?
    - é muito melhor! você têm mais equilíbrio, não vai cair desse jeito
    - ...
    - ...
    - ...
    - que foi?
    - nada, ué...
    - porque não levantou os braços?
    - gosto de andar com os braços pra baixo...
    - ...
    - ...
    - ...
    - o que foi você, agora?
    - mas que saco! não falei que é melhor erguer os braços pra se equilibrar?
    - é...
    - então!
    - eu gosto de andar com os braços pra baixo.
    - ...
    - ...
    - e se você cair?
    - ...
    - eu não vou te segurar...
    - ...
    - ...
    - ...
    - fala alguma coisa...
    - ...
    - ...
    - eu prefiro andar desse jeito, não tô dizendo que o seu jeito é melhor ou pior que o seu, é só o jeito que eu gosto...
    - eu entendi... mas é que eu...
    - não tem certo ou errado, sabe? não precisa ficar irritado comigo...
    - ...
    - ...
    - eu sei... desculpa, é que...
    - ...
    - ...
    - ... tá tudo bem...



    e chegaram os dois, sem cair nem um sorriso.

terça-feira, 20 de julho de 2010

asteróides verdes e fritos




Foi numa viagem a Saturno que encontrei pela primeira vez um Jupiteriano. Tive que fazer uma escala lá, aproveitei pra dar um rolê rápido, sacumé, né?

Sempre me falaram que eles eram grandes por lá, mas nunca imaginei que tão grandes. Pra você ter uma idéia, o pé de um jupiteriano tem o tamanho de um carro 1.0 popular aí na Terra. O que pros nossos padrões pode não ser muito grande pra um carro, mas te garanto que quando se trata dum pé, o sentimento é outro.

Eles não são muitos. Como sabem, o planeta é enorme, talvez pra fazer jus aos seus habitantes, só que é em grande parte gasoso. O que pros jupiterianos não é muito problemas, já que de alguma forma eles conseguem "nadar" em meio a esses gases densos da atmosfera bizarra do planeta. O que eles fazem de forma bastante... curiosa. Eles não simplesmente nadam, eu definiria mais como uma dança sincronizada entre polka e o frevo. Junte isso a gigantes de um olho e a sutilieza dum hipopótamo e... bem, acho que dá pra imaginar.

Bom, como eu disse, são poucos, e eu conheci um deles, Nibamol, sujeito simpático. E por incrível que pareça, arranha muito bem o português, disse ele que essa região da Terra é muito conhecida pela galera de lá: é um pessoal mais caloroso, mais bacana, menos preocupado, enfim... Perguntou do Carnaval e do Ronaldo, batemos um papo tranquilo, descompromissado. Quando tive de partir ele me pediu pra ir junto. Olha, minha nave não era das maiores, mas tava mais que bom pro tamanho do Nibamol. Que é grande mas duma simpatia que cativa, sabe? Cara bacana, meu!

Fomos a caminho de Saturno e ele me perguntou porque estava indo até lá. E até aí tava tudo muito bem. Quando disse que estava indo buscar um dos anéis de Saturno pra pedir minha namorada em casamento, ele caiu pra trás de tanto rir. Achei uma falta de respeito. Sabe? Pô, tava dando uma carona, me abri com ele ali. A gente nem se conhecia tão bem pra ele vir tirar sarro. Mandei um papo reto nele. Disse que queria casar e que tinha prometido um anel de Saturno pra ela. E que não havia quem me impedisse.

Foi aí que ele me falou que havia sim. Os anéis de Saturno pertenciam a um polvo cujo o nome não sei pronunciar até agora. E que ele não abria mão de nenhum deles. Comecei a ficar preocupado, quando o próprio Nibamol me acalmou. Ele disse que conhecia um jeito e que havia de dar certo. Mas que pra isso eu teria que lhe prometer que quando eu casasse a noiva jogasse o buquê tão forte, a modo que caísse em Júpiter, nas mãos de Kitunái, a mais bela jupiteriana. Que se caísse ela teria de se casar com ele. E assim eu lhe prometi. Nibamol me contou que pra pegar os anéis do polvo bastaria eu distraí-lo, com comida. E não poderia ser qualquer uma. O polvo gostava de comer pedras e não eram quaisquer pedras, gostava de comer esmeraldas que eram expelidas dos vulcões de Urano. E se eu conseguisse lhe trazer algumas, haveria tempo para retirar um anel do polvo antes que ele percebesse. E assim fiz. Quando o polvo começou a devorar as esmeraldas, houve a brecha que eu precisava pra pegar um dos anéis, peguei o mais bonito e logo fomos embora.

No meio do caminho ouvimos o polvo gritar, enfurecido, pela falta de um dos seus anéis, mas já estavamos longe o bastante pra ele não nos fazer mal. Com o anel em mãos, minha namorada se casou comigo e como combinado jogou o buquê tão forte que caiu na mão de Kitunái, que se casou com Nibamol, que também buscou um anel de Saturno para lhe dar.

E aí o polvo nem mais ligou. Viu que se por um ou dois anéis pudesse haver tanta alegria, que só o deixassem com um, para ele também poder ser feliz. Os outros ele deu pro universo. E estão por aí pra serem achados.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

alvorada de inverno



- ...
- ...
- tão bonito esse amanhecer...
- ...não é?
- é... lindo
- e é algo que vemos tão pouco...
- ...
- digo, o pôr-do-sol a gente vê todos os dias, cada dia na sua beleza diferente mas igualmente deslumbrante...
- ...
- e o nascer do sol é algo que não estamos tão acostumados, por mais que a gente acorde cedo, é difícil pegar ele nascendinho assim
- é... tem razão
- a não ser no inverno
- ...
- o sol nasce mais tarde
- ...
- é o que me faz pensar sobre o tempo das coisas
- ...
- a gente vive tanto cada dia que acaba esquecendo de observar o todo
- ...
- se não consigo ver a alvorada em outras épocas, sempre têm o inverno pra eu poder vê-la com mais frequência
- ...
- ...
- é que a gente acaba esquecendo que tudo tem seu tempo
- ...
- e que às vezes, mesmo sem perceber, o inverno chega
- ...
- e aí, vemos a alvorada quase todos os dias
- se acordarmos cedo
- ...
- ...
- mas mesmo assim, não tão cedo
- ...
- ...
- e é bonito mesmo
- é...










- sabe duma coisa?
- ...
- acho que isso tudo é sobre saber esperar
- ...e você não sabia?
- ...acho que ainda não sei
- ...
- ...
- é...
- ...
- ...

sábado, 12 de junho de 2010

o dia em que o tempo nos disse


Foi incomum. As pessoas ficaram assustadas. Eu fiquei assustado. Mas passado um certo tempo tudo ficou mais tranquilo. O bacana é que aconteceu com todo mundo. É igual você perguntar o que você tava fazendo quando caíram as Torres Gemêas (eu estava curiosamente ouvindo rádio).

Naquele dia eu tava apressado, como todo mundo era naquela época de alguns dias atrás (risos). Se não me engano eu estava correndo porque precisava terminar um desenho pra ser entregue no dia seguinte. Pois tinham me pedido naquela manhã. E por mais absurdo que isso pareça ser, naquela época era completamente corriqueiro. Eram três e meia da manhã quando eu abria a minha terceira lata de energético. Já tinha decidido virar a noite pra completar o desenho. Foi quando aconteceu. Apareceu esse cara que todo mundo diz que viu. Ele vestia roupas largas e vazava areia pelas calças também largas, caia bravamente sem cessar. Seu rosto era confuso, tinha números e ponteiros de metal, uns girando muito devagar e outros tão rápido que eu sequer podia perceber se não prestasse muita atenção. Dos seus braços saiam luzes como se fossem do sol e caiam litros d'água que não molhavam nem a areia nem meus papéis. Era uma visão que deveria assustar, mas era estranhamente familiar, não como um dejà vu, mas sim como se ele estivesse lá sempre. E quando comecei a sentir o cheiro de guardado envolto por um cheiro que jamais havia sentido, sua voz onipresente soou, não de sua boca, mas como se de dentro dos meus ouvidos. E isso aconteceu com todos.

Depois do que ele nos disse, as coisas ficaram desse jeito. Acho que todo mundo meio que se tocou do que tava fazendo, sabe? Esse correria toda da vida e tal...

O mais engraçado é que foi preciso o tempo parar pra nos falar que ele já tá correndo pela gente, que a gente não precisa correr por ele.

Foi um dia estranho.

Mas foi um bom dia.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Inacreditável Ultra-Moça



A visão que tive naquele dia não é fácil de se esquecer. E eu nem quero, na verdade.

Os dias estavam calmos demais, na ocasião eu havia saído pra tomar uma Coca-Cola, sozinho, como a muito não fazia. Tomar a Coca, não sair sozinho, isso já estava se tornando corriqueiro o suficiente pra eu me chatear. Sair sozinho, não tomar a Coca-Cola.

O cheiro que vinha com o vento era desses das flores que só desabrocham a noite, perfumando o escuro. Tudo estava calmo demais. Já faziam alguns dias que estavam assim. E foi quando percebi o copo derrubando a Coca, o qual eu sequer havia bebido, que me dei conta do tremor do copo, que era o tremor da mesa, que era o tremor do bar, que era o tremor do chão. O mundo todo a minha volta tremilicava. Eu já tinha visto isso acontecer, e não me surpreendi quando aquela massa escura, disforme e obstinada surgiu em frente aos meus olhos. Ela estava em minha busca e não era a primeira vez.

Fiz o que sempre fiz ao ver essa massa. Fugi. Fugi como se não houvesse amanhã. Porque se ela me alcançasse de facto, poderia até haver, mas não seria como hoje ou ontem. Mas dessa vez a massa parecia mais esperta, após algum tempo correndo, ela me encurralou. Me vi sem saída. Foi quando aconteceu.

O cheiro das flores da noite já tinham desaparecido sob o cheiro de xorume da massa, que nesse momento, foi completamente sobreposto por um odor absolutamente suave e doce. Não sabia identificar muito bem o que estava acontecendo. Isso era novo.

Foi aí que tive a tal visão. Era incrivelmente luminosa, veio voando, de trás duma nuvem, eu acho. Ela olhou pra mim e sorriu. Olhou para a criatura e cantou. Cantou sem palavras, sua voz amansava. A massa aos poucos foi se encolhendo, encolhendo e começou a ganhar cores antes de implodir em milhares de particulas brilhantes que se foram com o vento criado pelo vôo dela, que foi voando, mas que mais parecia estar dançando.

Eu sei que aquela massa pode voltar, mas agora, sempre que olho pras nuvens vejo outras cores no céu, e sei que não preciso mais me preocupar.

sábado, 24 de abril de 2010

só pra falar da beleza das mexericas

é um dia qualquer, como nenhum outro, só que dessa vez não é domingo, cá estou sentado digitando meio que sem pensar:

- a vida não é maravilhosa?!
- ... hehe, é sim... mas por que isso agora?
- minha nossa! como assim?!
- ...
- ...
- ...
- ué... a vida é maravilhosa, olha pra tudo isso! O céu que muda de cor, o sabor das comidas, a música!
- .... hehe, justo...
- olha essa mexerica...
- ...
- você pode abrir a casca dela sem nenhum instrumento, você usa as próprias mãos e pouco esforço...
- é...
- e ainda por cima, ela é altamente caridosa
- ...
- já vem dividida em gomos, para distribuirmos para os outros.
- faz sentido...
- ...
- faz mesmo...
- é...é a vida
- ...
- e viva as mexericas


e viva.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

duas colheres de maus hábitos



Tudo o que ele pensava era no futuro, em como ia ser e porque ia ser assim. Ele imaginava os detalhes, os dias, as horas, os minutos, os segundos. Nada podia lhe fazer tão mal.

E foi numa certa nona-feira, que ele já havia decidido tomar uma xícara de café:

- amigo, um expresso curto
- tá bem, açucar ou adoçante?
- açucar, obrigado
- ...
- { Em que horas será que vou almoçar no domingo? Será que vai ter strogonoff de fôrno? Porque se tiver é melhor eu não acordar muito tarde... porque aí eu vou ficar sem fome, e eu gosto de comer strogonoff com fome... Será que lá pelas 14h fica pronto? Porque aí eu acordando umas senhor 9h30 acho que tá bom... hummm mas e se não tiver strogonoff? Aí eu nem senhor vou fazer tanta questão de comer com fome... hummm... que difícil, o que eu faç...}


- senhor?
- oh! estava distraído, hehe, me desculpe
- hehe, tudo bem... aqui seu café... e o açucarzinho...
- obrigado!
- ...

E ele adoça e toma seu café e pensa no futuro, pensa naquelas pessoas que lêem o futuro nas borras de café, e pensa se isso pode dar certo, observa o que restou na sua xícara e tenta encontrar algum padrão que lhe diga algo, quem sabe talvez sobre o que fazer no domingo:

- SENHOR!
- minha nossa!
- Senhor! Me desculpe, eu sou novo aqui, comecei hoje!
- ...
- ...
- do que você está falando?
- como assim, senhor?
- não tem nada de errado, você me trouxe o café e está tudo bem
- mas... o senhor não colocou o açucar que me pediu?
- claro! duas colheres, como sempre.
- ...
- ...
- o que foi, rapaz?
- senhor, eu me enganei...
- como assim?
- é que eu me confundi, o que eu trouxe pro senhor não fo..
- ora, sem problemas, um pouco de adoçante não faz mal, hehe
- ...
- ...
- ...
- meu jovem, o que houve?
- é que era sal
- ...
- ...



E ele parou pra pensar.