Foi assim que me senti assim que cheguei. Os pés estavam em frangalhos. Não imaginava que teria de vir caminhando. Sempre que pensava nisso achava que, se eu viesse, seria voando, flutando, nadando... Nunca andando. Bobo eu, de não imaginar que seria da forma mais simples.
Eu até tentei correr em alguns momentos, mas não adiantava. A gente descobre que não escolhe muita coisa.
Eu não pequei, eu não menti. Em todo esse tempo eu tentei sorrir pras pessoas, mesmo sem estar contente. Tentei ouvir as palavras, mesmo quando me tapavam os ouvidos. Tentei enxergar na escuridão. Tentei sentir na solidão.
Sempre quis ser mais forte, mais corajoso, mais jovem, mais esperto, mais bonito. Queria que nada me doesse, sem saber que é da dor que a gente aprende muita coisa. E, por nossa sorte, no amor a gente aprende mais ainda. Eu não pequei, nem menti. Eu também não morri, se é isso que você está pensando. Eu apenas descobri que precisava caminhar. Esse era o único jeito de chegar. Estou cansado. O caminho foi longo.
Isso é um sonho, caso você não tenha percebido. Um sonho desses que em meio a todas as coisas que podemos fazer dentro dele, optamos por caminhar. Um sonho de verdade. Desses de acordar cansado, mas feliz. Desses de acordar e nos contar uma mentirinha. Que se sonhamos em caminhar, podemos voar enquanto estamos acordados.
Eu não caminho sozinho, as pessoas em minha volta estão comigo, dentro e do meu lado. Elas caminham do mesmo jeito que eu, e me apoiam se eu tropeçar. Assim como eu segurarei as suas mãos, sempre que precisarem. Nós estamos todos cansados. Os pés em frangalhos, mesmo de andar sobre o algodão. Nós não pecamos e nem mentimos.
E por hora, só queremos descansar.
Ao menos até acordar.
