sábado, 23 de março de 2013

oito graus em cada olho


Com dois olhos quebrados, o garoto não enxergava bem o mundo. Juntou 2 pedaços de vidro em cima do nariz e só assim as coisas ficaram mais nítidas.

Toda aquela miopia não estava aí à toa. Morria de medo do futuro.

E por isso, vivia fervorosamente o passado.

Sofria de nostalgia aos 12 anos, quando se lembrava do primeiro grau e filosofava sobre como aqueles tempos eram mais bem simples. De fato eram mesmo.

Aos 15 recordava-se de como era bom não ter que estudar química física ou se preocupar com vestibular aos 14 anos. “Preferia quando era só Ciências”, reclamava pra si.

Quando se formou no colegial e torcia por um dispensa no serviço militar, falava pra quem quisesse ouvir que a angustia de ter ou não passado do vestibular era muito melhor que aquilo tudo.

Já na faculdade, cursava História, por motivos que nem ele sabia explicar muito bem.

Naquela tarde de inverno, a prova estava marcada para as 14 horas. Ele seguia explicando para o seu amigo o como a prova de ontem tinha sido muito mais prazerosa de fazer do que a de hoje provavelmente seria.

Em meio à conversa, distraído, tropeçou e caiu. Com ele, seus óculos, e o mundo em sua volta ficou ainda mais nebuloso.

Naqueles instantes em que não podia enxergar claramente, muita coisa se passou na sua cabeça. “E se eu perder esses óculos? E se alguém pisar? Como vou fazer a prova? Como vou embora dirigindo? O que vou fazer com o carro se alguém me levar? Por que nunca quis pôr lentes de contato? Por que isso não aconteceu ontem quando eu estava de carona? “

Então ele ouviu uma voz: “Ei, são seus, né?”

Um borrão cor de pele e amarelo devolveu o par de lentes para ele.

Ele muito agradecido, não parava de dizer obrigado, se desculpando por ser tão desastrado e justificando que ano passado isso não teria acontecido pois ele usava cordinha nos óculos e assim era mais seguro. 

E então ele a viu.

Com as lentes ainda um pouco sujas enxergou um sorriso que ainda não conhecia. E sabia que daquele momento em diante, não tinha mais o que temer do futuro.

“Quer saber? Acho que vou trocar logo por lentes de contato... Obrigado mais uma vez, você é a...”


E nunca deixou de gostar do passado. Mas já não sofria.

Não mais.

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